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Mapa global mostrando anomalias de temperatura oceânica características do fenômeno El Niño
Clima e Meteorologia

El Niño 2026/27: o que os sinais do oceano e da atmosfera já indicam - e por que isso importa para o Brasil

Publicação

29 de junho de 2026

5 min de leitura

Foto: monitoramento climático global e aquecimento do Pacífico

A atualização publicada em 11/06 pela NOAA confirmou a presença de condições de El Niño e indicou tendência de fortalecimento ao longo dos próximos meses, com maior probabilidade de pico entre a primavera e o verão de 2026/27. Segundo a discussão oficial do CPC/NOAA, há elevada confiança na continuidade do aquecimento do Pacífico equatorial, sustentada por anomalias positivas de temperatura da superfície do mar, calor oceânico acumulado em subsuperfície e sinais atmosféricos compatíveis com o acoplamento típico do fenômeno.

Gráfico de barras mostrando as probabilidades da intensidade do El Niño (Neutro, Fraco, Moderado, Forte) para os próximos trimestres de 2026 e 2027

Figura 1 – Probabilidades da intensidade do El Niño em função dos próximos trimestres. A soma das categorias equivale a 100%. Fonte: CPC/NOAA.

Na prática, os principais indicadores observados até o momento apontam para um cenário consistente de evolução do El Niño:

  • Aquecimento da temperatura da superfície do mar (TSM): na faixa do Pacífico equatorial, especialmente nas regiões central e leste, reforçando a configuração oceânica típica de El Niño (figura 2).
Mapa de anomalias da temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico, destacando o aquecimento na região equatorial

Figura 2 – Desvio em relação ao esperado - anomalia - para a TSM entre os dias 01 e 16/06 de junho. Fonte: CPC/NOAA.

  • Temperaturas subsuperficiais acima da média na região do Pacífico equatorial: indicando a presença de um reservatório de água mais quente abaixo da superfície. Esse calor armazenado ajuda a sustentar e intensificar o aquecimento observado na superfície (figura 3).
Corte vertical do Oceano Pacífico mostrando anomalias térmicas positivas abaixo da superfície, indicando reservatório de calor

Figura 3 – Anomalia da temperatura subsuperficial. Fonte: CPC/NOAA.

  • Desintesificação dos ventos alísios que normalmente sopram de leste para oeste na faixa equatorial e contribuem para o acúmulo de águas mais quentes próximas à Austrália e à Indonésia. Quando esses ventos enfraquecem, o calor tende a se deslocar para o centro e o leste do Pacífico (figura 4).
Mapa de anomalias de vento em 850hPa mostrando o enfraquecimento dos ventos alísios na região equatorial

Figura 4 – Anomalia do vento em 850hPa (aproximadamente 1500 m de altura), com destaque para a região equatorial (quadrado em laranja) indicando uma desintesificação dos ventos alísios. Fonte: CPC/NOAA.

  • Índice de Oscilação Sul (SOI) persistentemente negativo (figura 5) sinalizando uma resposta atmosférica coerente com El Niño. Esse índice mede a diferença de pressão entre Tahiti e Darwin e é uma das formas de acompanhar o acoplamento entre oceano e atmosfera.
Gráfico da média móvel do Índice de Oscilação Sul (SOI) com valores em território negativo

Figura 5 – Média móvel de 30 dias do Índice SOI. Valores negativos indicam uma atmosfera com indicativos de El Niño e positivos de La Niña. Fonte: Bureau of Meteorology.

Quando comparamos esse conjunto de sinais com eventos anteriores, a leitura fica ainda mais relevante. No histórico recente, episódios fortes ou muito fortes de El Niño - como 1997/98, 2015/16 e 2023/24 - também foram marcados por aquecimento expressivo no Niño 3.4, anomalias positivas em subsuperfície e resposta atmosférica consistente.

Nos últimos 30 anos, esses eventos se destacaram não apenas pela magnitude da anomalia de TSM, mas também pela persistência do aquecimento e pela capacidade de reorganizar padrões de circulação atmosférica em escala global (figura 6).

Gráfico histórico e comparativo de anomalias de TSM na região do Niño 3.4 com projeções do modelo NMME

Figura 6 – Anomalia de TSM na região do NINO3.4 e projeção do multimodel americano - NMME. Fonte: CPC/NOAA.

A comparação com a temperatura subsuperficial reforça esse ponto: em anos de El Niño intenso, o oceano já apresentava, meses antes do pico, um volume significativo de calor disponível abaixo da superfície. A configuração atual mostra semelhanças importantes com esses episódios, embora a intensidade final ainda dependa da evolução do acoplamento oceano-atmosfera ao longo dos próximos trimestres (figura 7).

Painel comparativo de temperaturas subsuperficiais entre os anos de 1997, 2015, 2023 e 2026

Figura 7 – Temperatura subsuperficial para os meses de maio de 2026, 2023, 2015 e 1997. Fonte: CPC/NOAA.

Por que isso importa para o Brasil?

Para o Brasil, acompanhar a evolução do El Niño 2026/27 é essencial porque o fenômeno costuma alterar a distribuição de chuvas e temperaturas de forma relevante para setores como agricultura, energia, recursos hídricos, logística e gestão de riscos.

Em geral, eventos de El Niño tendem a aumentar a probabilidade de chuva acima da média no Sul do país, enquanto podem favorecer maior irregularidade das precipitações em áreas do Norte e do Nordeste. No Centro-Oeste e no Sudeste, os efeitos podem variar conforme a época do ano e a interação com outros padrões atmosféricos.

O ponto central é que não se trata apenas de “ter El Niño”, mas de entender sua intensidade, persistência e fase de desenvolvimento. Quanto mais forte e bem acoplado for o evento, maior tende a ser sua capacidade de influenciar padrões climáticos regionais.

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