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Infraestrutura de transporte de gás natural com gasodutos e terminais de GNL
Mercado de Gás Natural

A influência da geopolítica no mercado mundial de gás natural

Foto de Larissa Almeida Gomes Silva

Autor

Larissa Almeida Gomes Silva

Publicação

22 de abril de 2026

7 min de leitura

Foto: infraestrutura de transporte e comercialização de gás natural

Atualmente, a exploração e comércio de gás natural está se consolidando na dinâmica energética mundial. Entretanto, diferentemente de outras commodities, o gás natural possui certa complexidade no seu uso, devido à necessidade de infraestrutura física robusta, que inclui gasodutos e terminais do chamado GNL (gás natural liquefeito). Em função dessa complexidade, a distribuição e comercialização deste insumo acarreta relações de interdependência entre os países produtores e consumidores, muitas vezes devido às rotas de transporte.

Essa característica de dependência das rotas de transporte faz com que o setor seja especialmente sensível ao contexto geopolítico, em uma dinâmica muito parecida com o que ocorre com a indústria mundial de petróleo, onde tanto os conflitos quanto alianças internacionais podem impactar fluxos comerciais e, consequentemente, os preços nos mercados globais.

Como a invasão da Rússia na Ucrânia reconfigurou o mercado de gás europeu?

Um exemplo claro da dimensão geopolítica do mercado de gás natural pode ser observado após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. De acordo com a International Energy Agency, antes do início do conflito cerca de 40% do gás consumido na União Europeia era proveniente da Rússia. Com a escalada das tensões, o fornecimento de gás passou a ser utilizado como instrumento de pressão política por Moscou. Diante desse cenário, países europeus foram forçados a reconfigurar rapidamente suas estratégias de abastecimento, buscando fornecedores alternativos e ampliando as importações de gás natural liquefeito (GNL).

Gráfico mostrando a participação do gás russo no consumo total da União Europeia antes e após a invasão da Ucrânia em 2022, com base em dados da International Energy Agency

Figura 1 – Participação do gás russo no consumo da União Europeia. Fonte: elaboração própria com base em dados da International Energy Agency (IEA).

Segundo dados disponibilizados pela Reuters, com a tensão geopolítica, os preços do gás natural dispararam, chegando ao patamar de €300/MWh no pico da crise energética, refletindo a redução da oferta e a incerteza do mercado regional. Nos meses seguintes, a curva começou a recuar devido ao aumento de importação de Gás Natural Liquefeito (GNL), como forma alternativa de abastecimento, pelos países da Europa:

Gráfico de linha mostrando a evolução dos preços do gás natural na Europa (hub TTF) entre 2021 e 2024, com pico próximo a €300/MWh durante a crise energética de 2022, seguido de queda gradual

Figura 2 – Evolução dos preços do gás natural na Europa (hub TTF). Fonte: Reuters, com dados da Intercontinental Exchange (ICE) / LSEG.

Como destacou The New York Times, essa dependência energética transformou o gás natural em um elemento central da estratégia geopolítica europeia, levando governos a acelerar políticas voltadas à diversificação de fornecedores, com relevante aumento da importação dos Estados Unidos, e à expansão de infraestrutura energética, com intuito de aumentar a capacidade de importação.

Nesse contexto, o Gás Natural Liquefeito (GNL) ganhou destaque por sua importância estratégica, diante da possibilidade de flexibilidade no transporte do gás natural, como alternativa à dependência da infraestrutura de gasodutos. Entretanto, os preços desse suprimento também atingiram patamares elevados, tendo em vista o aumento da demanda mundial, iniciada pela disputa entre Europa e Ásia:

Gráfico de linha mostrando a evolução dos preços do GNL pelo benchmark JKM (Japan Korea Marker) entre 2021 e 2024, com pico em 2022 e recuo a partir de 2023

Figura 3 – Evolução dos preços do GNL pelo benchmark JKM (Japan Korea Marker). Fonte: elaboração própria com base em dados do benchmark JKM (Japan Korea Marker) – S&P Global Commodity Insights.

Como é possível observar no gráfico, a curva de preços do Gás Natural Liquefeito (GNL) cedeu após 2023, devido à redução expressiva no consumo do insumo pela Europa, em razão do contexto climático de inverno mais ameno, em conjunto com o investimento em infraestrutura de importação e a maior oferta global, proporcionada, em grande parte, pelos Estados Unidos.

E o conflito no Oriente Médio?

Além da guerra na Ucrânia, tensões em outras regiões também têm potencial para impactar o mercado global de gás natural. Como aponta The Guardian, instabilidades no Oriente Médio ou em rotas estratégicas de transporte de energia podem gerar preocupações sobre segurança de abastecimento e pressionar os preços internacionais.

Os conflitos atuais no Oriente Médio também trazem um contexto sensível para o mercado global de gás natural. Isso ocorre porque cerca de 20% do comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL) passa pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas para o transporte de diversos combustíveis. Grande parte desse volume está associada às exportações do Qatar, um dos maiores produtores e exportadores de GNL do mundo, cujo destino principal são países da Ásia — como Japão, Coreia do Sul e China — além de diversos países da Europa, especialmente após a crise energética ocasionada pela invasão russa na Ucrânia. O gráfico abaixo demonstra a representatividade dos continentes que importam GNL e que, portanto, podem ser diretamente afetados por conflitos nessa região:

Gráfico de barras ou pizza mostrando a participação relativa de cada continente nas importações globais de GNL, com destaque para a Ásia e a Europa como principais consumidores

Figura 4 – Participação dos continentes nas importações globais de GNL. Fonte: International Gas Union (IGU, 2025).

Como o continente asiático se apresenta como consumidor expressivo do GNL, é interessante avaliar a variação do volume de importação individualmente:

Gráfico mostrando a evolução do volume de importação de GNL por países asiáticos individualmente, incluindo Japão, Coreia do Sul e China

Figura 5 – Volume de importação de GNL por países asiáticos. Fonte: IEEFA (2025).

Assim como foi analisado o impacto do conflito na Ucrânia sobre o mercado de gás natural, também é possível observar os efeitos das tensões atuais sobre os preços no mercado global. Para isso, a tabela a seguir apresenta a evolução do preço do gás natural no hub europeu TTF — principal benchmark do mercado de gás na Europa — durante a escalada dessas tensões geopolíticas:

Tabela com a evolução dos preços do gás natural no hub TTF durante os períodos de escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio

Figura 6 – Evolução do preço do gás natural no hub TTF durante as tensões geopolíticas no Oriente Médio. Fonte: elaboração própria com base em dados de mercado do hub TTF (Intercontinental Exchange – ICE / LSEG).

Diante desse cenário, torna-se evidente que o mercado global de gás natural está conectado à geopolítica internacional. Conflitos regionais, disputas por rotas estratégicas e decisões de política energética seguem influenciando fluxos comerciais e preços. Nesse contexto, compreender essas interações torna-se fundamental para avaliar riscos e oportunidades no setor energético global, garantindo a flexibilidade e a segurança do consumo.

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